Me lembro apenas que era madrugada. Valdemar Madrugada o nome dele, como a noite que o conheci. Usava uma camisa listrada, o branco predominava, mas o rosa... azul... talvez 'liláix', das listras à muito usadas, 'verticaix', pareciam falar, como falava Madrugada sem dizer uma palavra. A calça de tergal cinza, no corpo magro tinha ginga, balançava mesmo quando se sentava. Combinava com os olhos, que eram cinzas, mesmo que não fossem cinzas como os cabelos grisalhos, contrastando com a pele mulata, mesmo que fossem mais brancos, era só ele que podia ver, mesmo que de todos possa lembrar, apenas dele não pude esquecer.
Quando fecho os olhos, mesmo abertos, sonhando. Ele vai entrando pelo lado esquerdo do salão, com uma bolsa, uma carteira de mão atravessada de baixo do sovaco. Parecia que guardava cartas, papéis, retratos... Algum segredo perdido, como o olhar, que procurava. Parecia aguardar um encontro, zanzava, pra lá e pra cá. Os movimentos lentos, fez aquilo durante muito...Muito tempo. Até se sentar, a meu lado.
Posso sentir o odor do seu corpo, exalava um perfume barato, um cheiro quente, de Brasil! Continuava a observá-lo de frente, ele agora de perfil, pois seus olhos continuavam procurando estavam agora, entre as pessoas... Dançando. Mas pude perceber que tinha razão, seus olhos eram cinzas! Aguados de tão claros, profundos de tanto amar. Não conseguia desviar os olhos de Valdemar, mas ele não percebia, não me via, nem a mim ou a ninguém, a não ser alguém que estava na pista. Segui-lhe a vista na mesma direção, então...
Estava vazio!
Mesmo com a certeza de que não estava. Lá, uma linda mulher rodopiava. Era isso que dizia o sorriso que esboçava levemente de repente. Sorria, como se a alegria de cada rodopio, o atravessasse feito um fio, levantando seus lábios que desejavam tocar os dela. Aquela imagem era bela! Era ela, me dizia! O tempo da malandragem, da poesia, Dos Arcos Da Lapa, lugar onde morava e estava, como eu também estava, mas ele podia ver eu não via nada. Embora pudesse sentir, que em cada parede descascada, janela reformada a história mal cuidada sobrevivia na alma e na mente de gente. Gente! Era assim que o definia...
Mas muita gente mudou, aquele casarão se transformou na resposta de outro tempo, outra humanidade, o sentimento, a alegria de verdade, não entra e não pode pagar... A música importada distanciava os corpos, atordoada retina bombardeada pelas luzes de canhões, no palco desfile de egos, vaidades, ostentações!... Não valiam nada aos olhos de Madrugada. Ele estava lá, apenas, para lembrar...
O que restava da festa eram as rugas que lhe faltavam na testa de setenta anos de idade. A saudade da boemia de verdade. Que se divertia de graça, se estendia na praça, adormecia à goles de cachaça e sorrisos furtivos... Entre amigos de bebedeira, entorpecidos a tarde inteira, regidos à mesma bandeira:
"...Branca amor, não posso mais, pra essa saudade que me invade eu peço Paz. "